17/06/2009




Te amo, como se amar fosse...
Como se amasse, amassado, amarrado.
A Maria, se amasse, amarraria.
Se amasse, amaria.

O ódio,
com todo o carinho,
com cheiro de enxofre,
exorcizo.

Do amor, dou amor.
Dôo amor.
Dor.
Da carne, aberta, alerta
do coração à coroação,
dôo amor.

Dôo sangue, órgãos, vida.
Dôo agasalhos, sapatos, comida.
Dôo amor.
Dor de amor não é com amor que se cura.
Dor de amor, secura?

21/02/2009




Isso, prevaricado leitor, é um romance policial. Descarte-o depois de ler, se só os clássicos lhe apetecem. Ou guarde-o, se lhe interessar relê-lo. Acontece que temos um criminoso, um mocinho, um romance e um crime. Com sangue, dor e tudo o mais que um crime pede. Não é um crime premeditado, mas também não é bala perdida. É crime acontecido, acontecendo, inevitável. Cabe a você, decepcionado leitor, descobrir o crime, o criminoso, o mocinho e o romance. Eles se mesclam numa história chata, repetitiva. O crime não é um fato, não é um acontecimento. O crime, desistente leitor, é viver.


21/12/2008

A aberração social.




Tem tanta coisa que eu preciso falar e sei que você não quer ouvir. Tem tanta coisa... É estranho, pra mim, saber que eu gosto mais de você do que você de mim. É como um esgar de anzol na boca, uma loucura de descobrir o motivo porque você não gosta de mim tanto quanto eu gosto de você. Não é lógico termos a mesma intensidade de intenções? Não pra você... Você não se importa. E eu me importo demais. Eu preciso, eu sinto falta. Você se diverte. Os olhos postos sobre qualquer coisa, o estômago querendo sair... Os fantasmas nos seguem em qualquer lugar, mas você não se importa. Você se diverte. Eu nunca sei o que me interessa de verdade, e você muda de interesses rapidamente. Quando eu percebi que me interessava por você, você já tinha mudado de interesse. Quando eu me voltei pra você, você já tinha me voltado as costas. Seu egoísmo não te deixa ver que eu preciso. Você é preciso na sua imprecisão. Você não se importa. Eu me importo demais.
Você tem fases e faces, todas egoístas. Você não se importa.
Eu não tenho surpresas pra você. Eu sou chato mesmo, te procuro, insisto, brigo e faço drama. Você se diverte. Eu não choro escondido, não corto os pulsos, não arranco os cabelos. Eu sinto sua falta e isso te basta. Você finge que lembrou de mim, mas isso não me basta. Eu esperava que você sentisse minha falta, mas eu não faço falta. Eu posso estar aqui ou longe, não faz diferença. Não pra você. Eu posso estar aqui ou longe, pra mim também não faz diferença. Sempre tem alguém, sempre tem você. Você não precisa ter nome ou rosto, você sempre está aqui. Mesmo quando está longe, você está aqui. Fazendo-me falta, mesmo quando está aqui.
Você devia ir pra longe. Você devia morrer. Não faria diferença, não pra você. Não pra mim. Você não é um, você é todos. Você vive em mim quando eu tento fugir. Você me alcança onde quer que eu chegue. Você me persegue porque eu sou você, e eu já não sei mais o que digo... estou me perdendo em mim. Estou me perdendo em você, dentro de mim.

13/12/2008

Bem-Querer



E quando o seu bem-querer dormir
Tome conta que ele sonhe em paz
Como alguém que lhe apagasse a luz
Vedasse a porta e abrisse o gás.

30/11/2008

Me faz chorar e é feito pra rir.


Tudo muito estranho. Muito estranho mesmo.
As coisas não estão sob controle, não estão onde deveriam estar. As pessoas não são quem deveriam ser. Eu não sei quem sou. Você deveria estar aqui, não aí. Você deveria ser minha salvação, não minha perdição. Eu deveria te amar pelo que você é, não pelo que eu preciso.
Alguém deveria entender tudo isso.
Alguém deveria entender e me explicar tudo isso.

Onde eu estava quando tudo aconteceu?

11/11/2008

Por acaso, numa noite qualquer.




Nos encontramos por acaso, numa noite qualquer. Ele buscava por diversão, eu buscava por qualquer coisa pra beber. Ambos buscávamos sexo. Ambos buscávamos nossos sexos.
Quando o vi estava no balcão, pedindo um cigarro. Olhou de soslaio, com o canto do olho. Eu olhei em cheio, de olho inteiro. Ele pagou o cigarro, agradeceu e saiu. Eu paguei o vinho e saí. Já na rua, chamei. Pedi o isqueiro emprestado, ele pediu um gole de vinho. A conversa fluiu fácil, ele perguntou pra onde eu ia, eu disse que já tinha chegado.
- To por aí, esperando o tempo acabar.
- Ta sozinho?
- To.
Vinho foi, vinho veio. Entre cinzas e cigarros, nos conhecemos. Foi por acaso, numa noite qualquer. Ele usava um casaco vermelho, eu usava uma camiseta branca. Ele usava gel no cabelo, eu não fazia a barba há quase uma semana. Ele precisava de alguém pra despenteá-lo, eu precisava de alguém pra me mandar fazer a barba.
Terminamos de beber na minha casa, com suas conseqüências. As melhores.
Terminamos o outro dia na sua casa, com suas conseqüências. As melhores.
O tempo, os vinhos, os cigarros. Nos amávamos, era verdade. Nos amávamos e nos completávamos, pois eu andava barbeado e ele despenteado. Nos amávamos, era verdade.
Usei seu casaco vermelho, joguei seu gel no lixo. Ele me comprou novos barbeadores, usou minha camiseta branca. Manchou de vinho, molho ou sangue.
Piaf na vitrola, Placebo no mp3, Chico no Leblon. Andávamos em harmonia. Andávamos por aí. Ele cozinhava, eu lavava. Ele dava, eu comia.
Trocávamos.
O tempo veio, os vinhos escassearam, os cigarros aumentaram. Solitários.
Terminamos.

Eu precisava de mais uma garrafa de vinho, por acaso, noutra noite qualquer. Ele precisava de outros cigarros, por acaso, noutra noite qualquer.
Trepamos ainda umas vezes, sem a mesma graça.
Trepamos ainda umas vezes, com outras graças.

19/10/2008

Pense bem, mas nem tanto.



O problema é conviver com isso... esse desespero que é de nada, essa ansiedade que é de coisa nenhuma. E um medo. Um medo do que vai acontecer, um medo do que pode acontecer. Um medo de sentir medo. E tudo gera uma angústia, uma agonia. Uma agonia que é de viver.
Como uma prisão, um prisma. Muitos corredores, muitas portas, muita gente. E tudo leva ao mesmo lugar. Nada tem graça. Nada dá vontade. E o tesão vai acabando, e o ânimo vai acabando, e um sentimento de solidão que aumenta. Como se você andasse na rua e todo mundo virasse a cara. Como se você não tivesse amigos no recreio. Como se seu pai, sua mãe, seu melhor amigo, sua namorada, seus vizinhos, seus colegas. Como se ninguém gostasse de você. E você sabe que não é assim, que é uma visão distorcida do mundo. Que é uma visão distorcida de você mesmo. Na verdade é você quem não gosta de você, daí o mundo fica cada vez mais estranho. As prioridades perdem a prioridade, as vontades ficam pra depois, o fogo vai se apagando... e só fica essa fumaça preta, que te sufoca.
Quando você não gosta de alguém, o que faz? Afasta-se. Aos poucos ou num golpe, você se afasta. Você evita quem te faz mal. Mas e quando é você quem te faz mal? Quando você não gosta de você mesmo, se afasta? Dar um tempo, tirar umas férias, sair do ar... Você está sempre ali por perto, sempre falando, falando, falando... E você não concorda com o que faz, mas faz. E não sabe o porquê. Haverá um porquê nisso tudo?
Quantos suicídios uma pessoa pode cometer? Quantas mortes? Você pode morrer o tempo todo, a cada minuto. E de nada adianta. Você pode morrer em todos os capítulos, e de nada adianta. A vida ta aí pra ser vivida, agüentada, levada... A vida ta aí. Quer você queira, quer não. As coisas não são fáceis, as coisas não são boas. Tudo tem fases, etapas, momentos. Mas quantas fases são necessárias pra uma vida? É melhor não pensar. Pensar pode doer mais que navalha. Nazarian é que tava certo, isso não é diversão. Não é pra você se divertir.
Qual a graça?
Você nasceu assim, você cresceu assim, mas você não é Gabriela. Não precisa ser sempre assim. Você só tem que aprender a mudar. Você só tem que querer mudar. O mundo muda quando você muda. E tudo fica mais suportável.
Isso de fazer escolhas, é inadiável. É inevitável.



Então vá, faça suas escolhas. Aproveita enquanto ainda vê alguma graça nessa merda toda.
Eu vou tomar umas aspirinas e ouvir Piaf.